10.7.09

A noite urbana

Edward Hopper, Night Shadows, 1921

Brilham no vento as luzes vigilantes
dos candeeiros públicos,
fogueiras
para as noites húmidas,
agitam-se as cortinas
da janela que tosse,
enquanto dois vultos
se esquivam enlaçados
dos últimos olhares,
nos terraços há quem procure
num quarto nu a intimidade.
Crónica Poética de Portugal: J.T.Parreira

tchau!

o suicídio às vezes aparece como último e único recurso. facas corte laser, a janela de um 17° andar, veneno, gás. a oferta é grande. mas o pior suicídio é insistir numa relação falida. porra, não deu, priu. lamenta-se. chora-se um pouco, mas o sol abre toda manhã e, como diria martha medeiros, "o espelho não é o mesmo todo dia". ele acordou suado, trêmulo, evitou o espelho, ligou o chuveiro e apesar de ter criado uma campanha pelo consumo consciente da água, demorou-se... queria tirar a ressaca, os últimos fios do pesadelo, as nóias e lembranças recentes. a campainha (por que tem sempre uma na hora errada?), a campainha tocou. enrolou-se na toalha, foi abrir. o olho mágico, a visão do, fez o coração parar por milésimos e depois danar-se a trotar ligeiro, enchendo a caixa do peito. tremendo, abriu. que é que cê veio fazer aqui? nem olhou pro filho. viemos ver você. pra que? sei lá, saudades, é você quem vem morar aqui com... eu? qu'istória doida é essa? apesar da resposta não deu brecha pra alegria, resmungou que tava de saída, o bebê fazendo festa pra ele, fingiu ignorar. de repente lembrou, a tal campanha, o pagamento estaria hoje na conta: dava pra comprar uma passagem até porto alegre. quem sabe um dia cruzaria com a martha medeiros fazendo cooper.

cotidiário

30 calendários
e nem um dia, útil

365
e nenhum sonho
nada
persiste

o que é um ano
na vida de um inseto?

para chico alvim

desenho
volteios e arpejos

e nada sei de linhas

construo sonhos
viajo

volteios e arpejos
e nada sei de música

Simetria

Sábado, 10h
Universitária FM - 99,9

Neste sábado, no programa Simetria, Thomas Enlazador fala sobre I Curso Popular de Design em Permacultura,que é a tecnologia de desenho de ambientes humanos sustentáveis com respeito aos padrões da natureza. O curso ocorrerá no Centro Ecopedagógico Bicho do Mato.Thomas Enlazador é Educador Ambiental, Promotor da Rede de Economia Solidária - Ciranda Solidária, Coordenador Pedagógico do Centro Ecopedagógico Bicho do Mato e do Programa de Meio Ambiente e Desenvolvimento da Universidade Federal de Pernambuco, Bacharel em Direito Ambiental e é Especialista em Educação Ambiental.Recentemente participou do 33º Enca - Encontro Nacional de Comunidades Alternativas, que esse ano aconteceu em Terra Ronca Goias
Na Agenda Zen, um oferecimento do , informações sobre o que acontece em Ming Terapias Orientais nossa cidade:palestras, cursos e oficinas.

O Simetria começa às 10h, na Universitária FM - 99,9

para juareiz

risco de vida
:cruzar olhar
na avenida rush
na esquinice
gerando incertezas

perigostoso é viver
riscando correndo riscos
transpirando broncas
respirando o infecto ar
de rodinhas
quadrilhas
bandalheiras

viver

Intocáveis e invencíveis

Texto enviado pela jornalista e radialista
patrícia breda

Pequeno grande texto. Maravilha!
(Nelson Motta)

Não tenho mais nenhuma ilusão de um dia ver algum desses criminosos travestidos de parlamentares atrás das grades e devolvendo o que nos roubou. Eles são muitos, e invenciveis.
Sob fogo cruzado de denúncias , juntam-se para se defender, como fizeram PT e PMDB no Senado, embora digam sempre que é pela instituição, a mesma que eles aviltam e apequenam com seus atos.

O dinheiro roubado de nossos impostos, teoricamente, pode até ser recuperado, mas o crime de desmoralizar uma instituição não tem preço.

O que nos resta? Confiar na Justiça? Na Policia? No ladrão ? Com Sarney e Renam comandando o Senado e espantados com a descoberta das 181 diretorias? A maior parte foi criada pelos dois. O resto, por Jader Barbalho, ACM e Lobão. E pior. Foram criadas por resoluções da Mesa e ninguém reclamou. E mesmo se reclamasse não adiantaria nada. Tudo dentro da Lei, na liturgia do cargo.

Seria um exagero comparar as disputas pelo poder no Congresso com as guerras de quadrilhas pelos pontos de venda de drogas nas favelas cariocas? Só porque uns vendem crack e cocaína e outros, privilégios e ilegalidades? Guerra é guerra, vale tudo na disputa pelos pontos de poder. Se um tiroteio é de balas, o outro é de números e nomes; mas sempre sobram balas perdidas.

Mas, quando o cerco aperta, os dois bandos acertam um armistício: o verdadeiro inimigo é a Policia. Ou, no caso do Senado, a opinião pública. Porque eles não temem a policia. Nem à justiça.
Eles só tem medo de perder eleição.

Diante do pacto de não agressão entre os dois bandos, resta-nos confiar nos ódios, nas invejas e nos ressentimentos das legiões de apadrinhados que estão perdendo a boca e se vingando de seus traidores. Que muitas falas perdidas encontrem seus alvos.

Diante da certeza de que eles vencerão, que jamais pagarão por seus crimes, que continuarão ricos e corruptos, e até mesmo respeitáveis, resta-nos ridicularizar suas figuras toscas, seus figurinos grotescos, seus cabelos tingidos, suas caras botocadas. Para que suas esposas e amantes leiam, e seus filhos se envergonhem deles no colégio. Como nós nos envergonhamos todo dia.

7.7.09

A mulher invisível

por fábio lucas

Como você inventaria o que não existisse? Como entenderia ao cruzar no meio da rua com uma idéia perfeita? Nem tudo que se idealiza é pleno desejo, ou reflete somente o plano polido do espelho.

Ela é aquela que você vê, mas seu vislumbre ultrapassa o conceito da visão. Porque ela é, pra você, bela e sublime. A beleza dela lhe parece o mero conduto do que não se exprime sem se perder, e não se percebe sem um grande susto.

Ela lhe perturba, e por perturbá-lo assim tão claramente é que a existência dela lhe confronta. Você percebe e se assusta. Você pára e escuta, na esperança de que a ilusão se revele, e se revelando, fuja. Mas no íntimo você não quer a fuga, quer o oposto da fuga.

Um senso de realística eternidade toma conta de você ao estar na presença dela, e você imagina o quanto seria bom e fácil e simples respirar a mesma atmosfera que ela por mais vezes, até por muitas vezes mais. E se isso transparece, ela apenas acha graça no momento em que você, crente que vivencia o eterno, não se dá conta de que seus braços e pernas viram mil braços e pernas e não decidem aonde ir. Ela acha engraçado o seu desalinho, sem sorrir, pois pouco importa: aquele é seu instante, não o dela, a sua eternidade, não a dela.

Ela não é fruto de sua imaginação – ela se transforma no fruto mais doce da sua imaginação a cada encontro, por mais fortuito, breve que seja.

Você imagina que esses encontros podiam depender menos do acaso. Que a sensação de eternidade que lhe toma junto dela abandonasse o realismo maluco que enlouquece, assumindo a leveza de um dia comum. Que o sorriso dela não fosse a estrela que explode irradiando luz e energia que você presencia num lance de sorte, e sim, a chama da fogueira ao seu lado, à noite.

Imagina os olhos dela prestando atenção em algo que pode ser dito uma extensão sua. Imagina os olhos dela prestando atenção no que ouve enquanto você lê. Imagina os olhos dela buscando no vazio uma ligação com o que você pensa, mesmo que você não tenha nunca como saber.


A mulher invisível (Brasil, 2009)
Direção: Cláudio Torres.
Com Selton Mello, Luana Piovani, Vladimir Brichta e Maria Manoella.
www.cameracronica.blogspot.com

5.7.09

Tango argentino

Não há muito que dizer de um tango
E tanta coisa se liga ao corpo
dançando com outro
O amor, os olhos a quererem ir
mais fundo, a noite
com sua estante de estrelas
o desejo
pronto para o salto como um gato
os sabores escondidos
como pássaros nas ruas de Buenos Aires
Os dançarinos correm pelas pampas
na sua cabeça, mãos nas mãos
agarram o coração
e corre um fogo pelas veias
e ao vento ardem sem saber
os vestidos e as facas.

Crónica de Portugal: J.T.Parreira

Por el sendero de "Los Venenos"


No sé si me perdí o llegué deliberadamente hasta allí, pero el caso es que me dirigía a ningún lugar con pasmosa seguridad. El único destino de ese sendero tan solitario era un pueblo en ruinas cuyos más comunes habitantes eran las arañas y las cucarachas.
En algún campamento de la infancia me habían contado sobre "Los Venenos", y sobre el camino que llevaba hasta allí. Era un pueblo sólo constituido por mujeres: estaba la panadera, la carnicera, la molinera, la zapatera, la alcaldesa, la sindicalista, la meretriz, la camionera...

Todas abandonaron y se fueron a la ciudad, ya que habían sembrado en las lindes del valle una planta que si se ingería era mortal y decididas, se la dieron una noche para cenar a todo varón mayor de dieciséis años. Debían odiarlos mucho supuse, pero el silencio de las féminas por las mañanas era comparable sólo l que un verdugo provocaría en una plaza llena de gente, cuando estuviera a punto de degollar a su víctima.

Me di la vuelta... No esperaba ver a nadie entreteniéndose en "Los Venenos" No obstante, la vi; era una mujer con el rostro ajado por el tiempo. Llevaba la falda remangada, y observaba con atención la maleza que la rodeaba, hasta que con el disgusto propio de que la hubiera encontrado haciendo algo malo, me dio caza con su singular mirada, y me sentí tan incómodo que tuve que alejarme pronto.

PILAR ANA TOLOSANA ARTOLA